Ponto de vista por Ana Paula Sá Menezes

VAMOS FALAR SOBRE A VISÃO DA POPULAÇÃO COM RESPEITO À REALIDADE POLÍTICA DO BRASIL

 

Uma Entrevista Exclusiva com Ernesto Araújo

 

Em entrevista ao Terça Livre[1] nesta manhã de quarta-feira (8), o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, falou sobre as manifestações do dia 7 de setembro, a repercussão na velha mídia e, também, sobre suas impressões quanto à visão da população com respeito à realidade política do país.

Max Cardoso: Ernesto, você esteve lá na Esplanada dos Ministérios desde às 8h da manhã. Como foi a experiência deste 7 de Setembro?

Ernesto Araújo: Foi uma experiência extraordinária, não me lembro de precedente de algo dessa magnitude. Na verdade, lembro de algo que podemos comparar, que foi a Diretas Já, eu tinha 17 anos na época e lembro de manifestações assim, e essa lembrança foi uma coisa que ficou muito marcada em minha geração. Não sei em termos de quantidade, porque na época tinha muito menos gente, em termos de quantidade não tem precedentes, mas talvez em termos de momento histórico seja algo que poderíamos comparar. O que foi a Diretas Já? Foi uma mobilização popular que deu origem à Nova República. Ela não conseguiu o objetivo direto, que era a aprovação da emenda Dante de Oliveira para o estabelecimento das eleições diretas, acabou levando a uma mudança de sistema político, de regime. Não vamos discutir aqui se era melhor ou pior antes, mas o sentimento popular é de que havia um sistema que estava esgotado, e esse sentimento popular traduzido nas ruas foi o que levou à Nova República. Esse sistema que vemos hoje, no fundo, é o resultado lá de trás, de 1984, de uma pressão popular. E agora, você vê uma mobilização popular imensa, de certa forma contra esse sistema. A Nova República abandonou, digamos assim, essa raiz popular, talvez desde o começo, desde a Constituição de 1988, e constituiu uma nova oligarquia. Portanto, o que eu vi foi essa mobilização que também é bem mais ampla do que simplesmente a preocupação, ou melhor, simplesmente não, porque é uma coisa magna, a preocupação com a liberdade de expressão e com o cerceamento da liberdade de expressão que estão acontecendo por determinadas ações do Supremo, especialmente de um ministro. Mas eu acredito que há uma percepção também, há um sentimento de que é um sistema. Vimos nas entrevistas feitas por Kássio Freitas, e, também, vi nas conversas que eu tive – e para mim foi muito bom estar ali – no gramado, tendo a oportunidade de conversar com as pessoas, o sentimento que extrapola esse ponto que hoje é muito gritante, a liberdade de expressão. Creio que hoje há essa mobilização específica, tem um sentimento mais amplo. Mas o que também vejo é que não tem um mapa, e creio que isso ficou claro, pelo menos para mim. Não sabemos muito bem, estamos no mar de alguma coisa diferente, mas não temos o mapa de onde estamos e de como chegar a alguma coisa diferente.

Italo Lorenzon: Quando faço análises, tenho um termo que uso para mim, faço a diferenciação entre baixa política e alta política. E o que são essas duas coisas? A baixa política seria mais as preocupações de ordem material imediatas como inflação, o custo do feijão, do arroz, esse tipo de coisa. E a alta política são as questões mais de valores, como as de liberdade de expressão, de lisura das votações etc. E acho muito interessante – gostaria que o senhor comentasse um pouco sobre isso – o tamanho de uma mobilização, o perfil socioeconômico – percebemos que não é muito alto, embora tenhamos ali pessoas de todos os perfis –, você tem ali a presença clara de pessoas das classes C, D e até E nas manifestações, e a maioria delas, ou quase todas elas discutindo alta política, questões como liberdade de expressão, lisura das eleições etc., é interessante ver como esses temas entraram na casa do brasileiro.

Ernesto Araújo: Certamente. Enquanto você falava, eu me lembrei também de um momento no CPAC, do qual eu participei sábado passado, e lá conheci uma moça que me falou: “Olha, eu sou diarista e estou aqui no CPAC porque acredito nas coisas que vocês estão falando e me preocupo com algumas coisas que estão sendo discutidas aqui”. Isso, para mim, foi muito impactante, em termos de amplitude social. O grande problema é a manipulação da informação pela grande mídia, infelizmente temos que voltar a isso. Você vê nas reportagens que saíram, as imagens e as informações brigando com as imagens, ignorando as imagens. E pior, formatando o pensamento. Um exemplo foi aquela foto, não sei se da CNN ou da Globo, que mostrava a Esplanada e embaixo aquela frase: “Manifestações antidemocráticas em Brasília”. O que acontece hoje? Muita gente vê aquilo e se orienta pelo que está ali na vinheta: “Ah, então são manifestações antidemocráticas”, e são pessoas geralmente muito instruídas. É muito interessante, porque temos uma diarista vendo a realidade e ao mesmo tempo temos muita gente com doutorado e pós-doutorado – alguns de má fé, mas muitos de boa-fé – que olham e não veem, só veem o que está na vinheta. Hoje, nós vivemos nesse mundo de rotulagem de vinheta, já rotularam de antidemocrático esse tipo de comportamento e a partir dali há todo um raciocínio advindo dessa ótica do “antidemocrático”. Isso é o que considero como antidemocrático, é essa formatação insidiosa da percepção das pessoas.

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Ana Paula Sá Menezes

Mãe de Autista

Mestre em Ensino de Ciências na Amazônia

Especialista em Ensino de Matemática

Especialista em Neuropsicopedagogia

[1] Disponível em: Diário Terça Livre, ed. 329, 09 de setembro de 2021.