Trem, picolé, pai vascaíno: o torcedor Oswaldinho e as memórias do Maraca

Trem, picolé, pai vascaíno: o torcedor Oswaldinho e as memórias do Maraca

Rubro-Negro desde cedo, Oswaldo de Oliveira recorda idas com a família ao Maior do Mundo, onde reverenciou Carlinhos, Dida, Zico, além de Dinamite, Escurinho, Pelé…

Terminado o papo que durou 39 minutos. Oswaldo de Oliveira suspira: “Falar dessas memórias é muito legal, porque me lembra de coisas que fico viajando”. A viagem à infância do pequeno Oswaldinho é feita de trem, transporte que o levava ao Maracanã. A primeira estação é Realengo, de onde saía com o pai, também Oswaldo, e o irmão Waldemar. “Alucinado” por futebol, como se define, ia a jogos não só do seu Flamengo, mas também de Botafogo, Fluminense e Vasco. No então Maior do Mundo, posicionava-se nos lugares mais confortáveis, longe da Charanga e dos locais de maior concentração de público. Picolé e cachorro-quente davam o sabor dos tempos de criança no estádio.

Nasceu vascaíno por influência do pai. Antes dos 5 anos, porém, virou a casaca ao ver seus amigos empolgados com o “Rolo Compressor”, escrete rubro-negro que conquistou em sequência os Cariocas de 1953, 54 e 55. O time em questão inspirou o Samba Rubro-Negro, assinado por Wilson Batista, Jorge de Castro e Negro Alvarez. Rubens, Dequinha, Pavão, Evaristo, Zagallo e Dida foram alguns dos craques.

– Meu pai era vascaíno. Me vestia todo de Vasco quando era pequenininho, aí eu fui para a rua ainda novinho e aquele primeiro tricampeonato mexeu comigo. Aliás, primeiro, não, o segundo (53/54/55). Falo primeiro, porque foi o primeiro para mim. O de 42/43/44 eu não vi. No de 53/54/55 eu era garotinho, mas eu me lembro pelo convívio com os meninos e virei rubro-negro. Eu tinha 4, 5 anos de idade. As minhas lembranças são mais generalizadas, mas meu primeiro grande ídolo foi o Dida. Depois veio o Carlinhos (meia do clube de 58 a 69) e depois foi o Zico. Aí já com consciência, porque sou mais velho do que o Zico (dois anos e nove meses).

Oswaldinho, embora rubro-negro de carteirinha, era sobretudo amante do futebol. Sua primeira vez no Maracanã aconteceu aos 6 anos, em 29 de setembro de 1957, dia de Clássico Vovô, e o Fluminense venceu o Botafogo por 1 a 0, gol de Escurinho. Ver jogos de outros clubes tornou-se hábito desde a tenra idade até à maturidade. Golaços de Pelé, pela seleção brasileira, e Roberto Dinamite, com a camisa do Vasco, não saem da memória do hoje treinador.

– Na primeira vez no Maracanã, fomos ver um Fluminense x Botafogo. O Fluminense venceu por 1 a 0 com gol do Escurinho, que era ponta esquerda com o pé direito. Depois assistimos a um Vasco x Fluminense, e o Vasco ganhou de 2 a 0. Eu gostava muito de ir ao Maracanã ver jogos. Assisti a muitos da Máquina Tricolor. Vi também o Botafogo perder invencibilidade de mais de 50 jogos para o Grêmio. Jogos de seleção brasileira, então, eu adorava. Vi um gol do Pelé contra a Argentina na preparação da Copa de 70. Ele com o pé esquerdo conseguiu encobrir o Cejas (goleiro hermano). Vi o gol do Dinamite contra o Botafogo, do lençol no Osmar… – enumera.

Contra o Vasco, seu adversário no próximo domingo, Oswaldo tem lembranças positivas e ruins. Confira abaixo bate-papo que rememora algumas edições do Clássico dos Milhões, ídolos da infância de Oswaldinho e os tempos em que imitava o locutor Waldir Amaral.

GloboEsporte.com: Quais são os jogos mais marcantes do seu tempo de arquibancada?

Oswaldo de Oliveira: Fui com meu pai e meu irmão na final do campeonato de 63 (Fla-Flu), que a gente não conseguiu entrar de tão cheio que estava (177.020 pagantes registraram o maior público de um jogo entre clubes de todos os tempos). A gente chegou na porta, e meu pai desistiu. Pegamos o trem, e eu, já em casa, pude acompanhar o segundo tempo pelo rádio. Foi um 0 a 0 em que o Marcial, goleiro do Flamengo, pegou tudo (o Rubro-Negro sagrou-se campeão). Teve a bola do Escurinho, que ele estava praticamente de costas e pegou no reflexo.

Na época de criança, sonhava ser jogador de futebol?

Sonho de jogar eu tinha, sim. Era um negócio absurdo. Não era tão televisivo ou tecnológico como é hoje. Isso é muito em função da mídia e das facilidades de videogames. Mas tínhamos muito álbuns de figurinhas e jogos de botões. Me lembro que antes desse último jogo de 63 passei a semana inteira narrando os gols que eu achava que seriam os da vitória do Flamengo. Ficava imitando o Waldir Amaral. Eu era alucinado. Lembro que um dia fui escrever uma redação para a escola, isso em 62, e o professor disse: “Escreve sobre a profissão que você quer exercer”. Eu tive que escrever outra, porque disse ao meu pai que queria ser jogador, e ele, que era meu grande incentivador, falou: “Filho, faz outra. Você tem que estudar, também pode ser jogador, mas tem que ser um oficial do exército ou médico”. Eu era alucinado para ser jogador. Aliás, a minha paixão pelo futebol é que me fez seguir nele, porque eu não me via fora dele.

Quem era o ídolo de infância? A quem imitava?

No início, imitava o Gérson, que jogava com o calção baixo. O meio-campo do Flamengo era Carlinhos e Gérson, o time jogava no 4-2-4. Mas, como eu era destro, e vendo o Carlinhos jogando repetidamente no Maracanã, virei um admirador dele. Lembro que, nesse jogo de 63 (a final), ele perdeu quatro quilos de tanto que correu. Ele tinha um problema de bronquite ou asma e era muito magrinho. As pessoas o chamavam de Violino também por isso. Ele tinha uma característica de não olhar para a bola. Ele ficava no contato com a bola e jogava. Aquilo me chamava muita atenção. Da minha infância meu grande ídolo foi o Carlinhos.

E contra o Vasco? Alguma lembrança especial?

A primeira eu ouvi no rádio. Em 1958, que foi aquele Super-Super Campeonato (apelidado dado ao estadual do ano em questão). O último jogo terminou em 1 a 1, e o Vasco acabou campeão. E houve muitas outras vitórias dos dois lados, porque o Carioca sempre teve essa graça. Lembro daquele que o Flamengo tinha sido campeão da Libertadores e Mundial e jogou a final do Carioca, perdeu o primeiro jogo e só ganhou no terceiro – o Rubro-Negro venceu a competição sul-americana em 23 de novembro, o Carioca em 6 de dezembro e o Mundial no dia 13.Teve a história do Ladrilheiro. Aí eu já era adulto, estava no Maracanã. Teve um gol incrível do Nunes, o goleiro do Vasco dividiu a bola com o Júnior, e a bola sobrou para o Nunes.

E a final do Rondinelli (de 1978, em que o Fla venceu o Vasco por 1 a 0, com gol aos 41 minutos do segundo tempo)? Você tinha 28 anos. Estava lá?

Estava atrás do gol naquela bola quando o Zico foi bater o córner. Normalmente o Zico não batia escanteio, mas ele foi naquela bola, e o Rondinelli conseguiu cabecear atrás do Abel, se não me engano.

Estavam engasgados com o Vasco após derrotas em decisões por pênaltis em 76 e 77?

Perdeu aquela do Tita nos pênaltis (jogo derradeiro do Carioca de 77 – final do returno) e tinha perdido uma antes (decisão da Taça Guanabara de 76). Estava meio engasgado, e estávamos ficando um pouco traumatizados.

Em 2001, meses depois de uma conturbada saída do Vasco, o Flamengo conquistou seu quarto tricampeonato carioca com aquele gol do Petkovic. Teve sabor especial por ser seu clube de coração e devido ao problema com seu ex-clube?

O Vasco era o time que eu tinha trabalhado (armou o time campeão da Mercosul e do Brasileiro meses antes), acho que só o Juninho tinha saído depois do Brasileiro. Foi um golaço, uma coisa bem forte na época, mas eu não estava no Rio. Estava em São Paulo comentando jogos do Campeonato Paulista.

Você já disse que, ao virar profissional, teve de se desligar da paixão pelo Flamengo. Foi fácil isso?

Sinceramente não foi muito difícil, não. Eu sou muito apaixonado por futebol na essência. Então sempre trabalhei com muita isenção, porque meu pai, um vascaíno, aceitar o filho flamenguista já foi uma lição. Ele foi muito legal de admitir isso. Me dava camisa do Flamengo… Meu pai era uma pessoa maravilhosa.

E qual era o time do Waldemar (Lemos, ex-técnico do Flamengo), seu irmão?

Waldemar era vascaíno junto com meu pai. Tenho também um irmão que é temporão, o Serginho, que jogava no América. É um cara muito sem time.

Você e Waldemar encarnavam um no outro pela rivalidade?

Sou mais velho, três anos era muita diferença. Então não encarnávamos um no outro, não.

O carma da sua geração era o Botafogo, né?

Era terrível, ainda tinha aquela história do Manga de falar que o bicho era certo, mas o terror mesmo era o Garrincha. Me lembro que uma vez foram jogar Flamengo e Botafogo, e o Garrincha não ia jogar. Me animei e disse: “Agora vamos ganhar”. Mas perdemos de 2 a 0 (risos). O time do Botafogo era um timaço, Flamengo também era bom, mas o Botafogo era imbatível.

Hoje em dia, quando não está empregado, assiste aos jogos do Flamengo?

Hoje acompanho futebol, porque eu gosto. Não passo o dia inteiro em frente à TV, mas gosto de ver bons jogos, como os da Champions, de Bayern, Real Madrid, Barcelona… Também tenho muito interesse nos jogos do Brasileiro. Engraçado: os clássicos do Rio eu gosto mais quando são no Carioca, porque me traz a lembrança das grandes decisões. Campeonato Brasileiro não… Você vai jogar contra Corinthians, Grêmio, Internacional. O Carioca era maravilhoso. E os pequenos eram todos da cidade, só o Canto do Rio que era de Niterói. Uma coisa muito regional, muito intensa.

Fonte: Ge

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